BOM CHORINHO – UM RITMO GENUINAMENTE BRASILEIRO.
Pedacinhos do Céu, Brasileirinho, André de Sapato Novo, Zero a Zero, são algumas pérolas que ornamentam o cenário da música popular brasileira, hoje depauperada pela reinante e abusiva falta de criatividade. São sucessos eternizados do chorinho, um ritmo nosso, sem similar além-fronteiras, e que tem muito, mas muito mesmo, da alma brasileira.
Choro é sinal de tristeza, geralmente, mas há momentos em que o choro representa alegria, devido uma grande emoção positiva. Chorinho, que deveria ser apenas um choro pequeno, um lamento sem maior consequência, é a denominação de um ritmo popular, talvez o mais original do Brasil, ou um deles, ao lado do Frevo. Em Feira de Santana esse buliçoso e agradável ritmo ‘tupiniquim” tem sua representatividade através do Grupo Chorinho Entre Amigos, surgido há duas décadas com três cds lançados e muitos shows realizados na Bahia.
Não há uma data exata, mas estima-se – pelo menos alguns estudiosos do assunto admitem assim -, que o choro surgiu pouco antes de 1900, através de amigos que gostavam de tocar juntos, como ocorria com os “seresteiros” que se reuniam com seus violões, cavaquinhos e às vezes bandolins. Logo a eles se uniam os “batuqueiros” ou ritmistas, com pandeiros, pratos, garrafas ou o que estivesse ao alcance das mãos e possibilitasse a marcação rítmica. Na verdade apenas um passatempo, um entretenimento. Vale lembrar que ainda não havia a televisão, que veio oferecer tantas opções.
Assim surgia essa nova configuração rítmica tendo como base: violão, cavaquinho ou bandolim para o solo e o pandeiro na marcação. Na época de predominância da valsa, polca, canção, samba-canção, tango e bolero, o saltitante chorinho começou a frequentar as rodas de samba. Como já dito, há imprecisão no histórico do chorinho, mas é preciso destacar o nome de Pixiguinha, considerado “o pai do chorinho” pela sua relevante participação e de seu pai, que era flautista e, nas horas vagas, reunia “chorões” na sua Pensão Vitória, por onde teria passado o imortal Villas Lobo. Isso nos anos de 1890, já que Pixinguinha nasceu em 1897.
Talentoso e com o chamado “dom” para a música, aos 13 anos Pixinguinha já integrava a Orquestra do Teatro Rio Branco, no Rio de Janeiro e, atribui-se a ele, o desenvolvimento de uma linguagem absolutamente brasileira para o novo ritmo. Além disso, como compositor brindou-nos com melodias como “Carinhoso”, impossível de não ser conhecida até pelas gerações atuais, salvo daqueles que não gostam de música ou se contentam com o que não tem qualidade.
Mas, junto a Pixinguinha é necessário elencar uma “turma” de “chorões” sem os quais essa história, talvez, não chegasse aos dias atuais. Dentre eles: Jacob do Bandolim, Dilermando Reis, Russo do Pandeiro (Antônio Carlos Martins), Canhoto (Américo Jacomino) autor de Abismo de Rosas, Copinha (Natalino Cópia), Antônio Rago, Isaias Bueno e o irmão Israel, Antônio Carlos Cassaqueira, Leandro Braga, Proveta (Naylor Azevedo), Paulo Bellinatti e Mario Beltrame.
Há outros nomes importantes e deles não se pode deixar de fora o paulista Garoto (Aníbal Augusto Sardinha). Aos 11 anos já era chamado “o garoto do banjo”. Em 1939, convidado por Carmem Mirada, foi tocar nos Estados Unidos, tal o seu virtuosismo que recebeu o título de “O Homem dos Dedos de Ouro” e foi homenageado por “feras” do jazz como Duke Ellington e Art Tatum. Garoto, autor da composição Gente Humilde, foi considerado “o melhor violonista do Brasil” e nos Estados Unidos, tocou com exclusividade para o presidente Roosevelt, na Casa Branca! Foi ele que concebeu o que depois seria a bossa nova.
Características comuns encontradas nos músicos que se inclinam para o choro: improviso e competição. O chorão é considerado um virtuoso já que explora ao máximo as potencialidades do seu instrumento musical, até porque o choro tem uma maneira própria de tocar, “uma maneira bem brasileira” leve, “amolecida”, diferente dos repertórios estrangeiros de ritmos “duros”, repetitivos, com dobrados, polcas, marchas que predominavam então.
O grupo feirense Chorinho Entre Amigos surgiu no bar de Didi do Violão, onde ele e Mirinho (Almir Ferreira da Silva), que tocava vários instrumentos, começaram “brincando” e agradando em cheio aos frequentadores. Outros amigos se juntaram. Com a mudança do bar para o bairro Capuchinhos, nos finais de semana e domingos, a plateia era muito grande. Em 2008 faleceu Mirinho, mas o trabalho não parou, apesar do enorme baque emocional, até mesmo como uma forma de homenageá-lo. A mais recente formação do grupo: Didi (violão), Carlos (bandolim), Laerte (cavaquinho/violão 7 cordas), Felipe (pandeiro), Luciano (rebolo) e Douglas ( tan-tan). Com esses instrumentistas o choro continua forte em Feira de Santana.
*Por Zadir Marques Porto (colaboração)

