ELE VIU A TANSFORMAÇÃO DA SENHOR DOS PASSOS.

Valter Perdiz Justo

A tranquila avenida, onde residiam   tradicionais famílias da cidade, foi se modificando gradativamente e hoje, constitui-se em um dos principais points comerciais de Feira de Santana. Ele a tudo assistiu, como um expectador privilegiado e silencioso. Valter Perdiz Justo – descendente de espanhóis -, mas até hoje residente no antigo bairro do Ponto Central, cuja referência atual pode ser o EMEC, foi contratado em 1968, para trabalhar como operador do Cine Teatro Iris, que ficava na esquina ou confluência da avenida Senhor dos Passos com a rua Carlos Gomes. Dois anos antes ele havia começado no Cine Madrid, rua Castro Alves, onde hoje há um restaurante. De início era responsável por serviços gerais, mas logo passou a operar ao lado de Vicente, que era mais experiente. Rapidamente destacou-se e foi convidado por Normando Barreto para trabalhar no Cine Iris.

Era um bom trabalho, garante, já que cinema na época era um entretenimento que mobilizava a sociedade, com as grandes produções de Hollywood, mas Valter, jovem chefe de família, entendeu que poderia ampliar seus ganhos instalando uma banca em frente ao cinema, exatamente em outubro de 1970. Vendia cigarros, chicletes, caramelos, cocadas, drops, chocolates. Nos dias de semana tinha um bom movimento, principalmente devido às sessões noturnas do cinema. Aos domingos, as vendas cresciam com as matines, quase sempre com filmes de faroeste, que atraiam multidões de adolescentes.

Aos domingos, durante toda a tarde, havia na porta do cinema um verdadeiro comércio de revistas em quadrinhos. “A garotada vendia, comprava, trocava revistas de Rocky Lane, Zorro, Reis do Faroeste, Cavalheiro Negro, Roy Rogers, Ai Mocinho, Tarzan e várias outras. Eu mesmo cheguei a ter cerca de 1.200 revistas”, lembra. Cita que, na banca, os cigarros tinham grande saída, “Continental, Hollywood, Carlton, Brasa, Erby, Astória, eram alguns dos mais vendidos. Os chicletes também vendiam muito, coisa da moda”. A partir dos anos 80, rememora, a face da av. Senhor dos Passos começou a se transforma rapidamente. “Houve a mudança do desfile da Micareta para a avenida Getúlio Vargas e o comércio começou a tomar o lugar de belas residências como as de Modesto Cerqueira, Oscar Marques, Milton Falcão de Carvalho (“seu” Bubu), Wilson Falcão, dr. Renato Sá. Dai em diante é o que se vê hoje. Naquela época dava para se contar as pessoas que passavam aqui, durante o dia. Hoje, ninguém consegue contar os transeuntes durante cinco minutos”, ressalta Valter.

Valter Perdiz Justo

Ele manteve a banca no local tradicional, em frente ao Cine Iris, mesmo depois que o cinema foi desativado. Todavia, há dois anos, com as obras de modernização do centro da cidade, só aos domingos ele atua ali. Durante a semana, mantém, um pequeno espaço no lado oposto da avenida. Durante 48 anos Valter foi operador de cinema e fala que era bem mais difícil trabalhar com duas máquinas, com grandes rolos de filmes que, muitas vezes, quebravam e tinham de ser emendados de forma super-rápida com acetona para a exibição continuar. ”Hoje, pode-se colocar vários rolos em um só prato, tudo prático, rápido”. Mas, garante que a “magia” daquele tempo “valia à pena”. Mesmo depois de ter assistido centenas de películas, ele lembra com precisão de muitas cenas e destaca como alguns dos melhores filmes: O Milagre, “que tinha como protagonista uma jovem freira”, O Filho do Trovão, com Giuliano Gema, E o Vento Levou, Tambores Distantes, com Gary Cooper, Os Brutos Também Amam e alguns épicos como Bem Hur. Casado com dona Maria de Fátima e pai de 16 filhos, “todos criados” Valter Perdiz Justo, ainda tem boa ligação com o cinema. Embora não vá a uma sala de projeção há muitos anos, mantém em sua residência um grande acervo de filmes  em DVD, “principalmente faroeste”, para o seu deleite pessoal.

*Por Zadir Marques Porto – jornalista.

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